Que volta dei como bolas num malabarismo, os truques da linguagem e performance de um artista perante vós, plateia! Esqueci de abrir as cortinas, então melhor esperar!
Quando se abre um novo livro de páginas em branco, quando há material escrito previamente, bom ou ruim, sei que uma fagulha de cada ficção ou fragmento de minhas elucubrações podem ser aproveitadas, lapidadas, mas não copiadas e até nem recicladas.
Há essa urgência pelo novo, pela nova voz, a sós, nós que escrevemos, sofremos tentações de abraçar tudo que já cuspimos sobre uma página que se tornou suja.
Esta sopa não possui receita própria, não consigo misturar gêneros dos devaneios fantásticos advindos da esfera do sonhar e nem das experiências de vida que com orgulho me alimentaram com maturidade até nas palavras.
Ah, “não consigo misturar” é muito grave, que desonrosa declaração para alguém como eu, minha pena escorregou e minha mão não pede perdão, só corrijo que não me agrada ao todo me manter constante em todo instante ser classificado como tal com tal estilo.
Como uma vaca eu mastigo essa vida de memórias, engulo, processo e ela volta a ser mastigada e assim decido com o que fazer com essa matéria, se processei algo delicioso para a boca, cheiroso para meu olfato e lindo para os olhos.
Então cuspo numa porcelana de flores, caso contrário, engulo e defeco para as profundezas de covas que se alimentam da desgraça, mas que também serve de insumo para a vida da superfície, das raízes às folhas.
Uma folha caiu em meus cabelos no outono, não a comi, guardei-a em meu caderno, não tem palavras, mas tecidos e pequeninas vidas com incapacidade de dizer, estão seguras com seu próprio espaço raso vindo das árvores.
Quero dizer tanto,
quero dizer TUDO,
quero para mim
toda a História,
todos os Nomes,
todas as Vidas,
um egoísmo natural que todo autor almeja. Seu lugar no céu é a reinvenção, utilização de tudo que foi para o que veio a ser, um conjunto de bocas de escritoras e escritores para um novo movimento, isso sim é o toque do dedo de Deus.
Finalizado este objetivo, não há mais motivo para permanecer em quase eterna labuta neste Purgatório cansativo, cansativo para o corpo, para matéria física, para quem sente frio e sede. Meus olhos acendem a candeia da Eternidade e meu repouso pode indicar à alma novas fontes de convocação.
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