Se por um lado em 1966, avançavam movimentos sociais como a segunda onda do feminismo, o movimento hippie, a luta pelos direitos civis e a revolução sexual, por outro lado, avançava também, a repreensão ditatorial-empresarial instalada no país desde abril de 64.
Assim é “Todas as mulheres do mundo”, um filme que sintetiza as antinomias e contradições que tomavam conta do país no seu momento de concepção.
Se por um lado, o protagonista gaba-se de seu Don Juanismo, basta uma ameaça de perda da mulher amada, para que o mesmo recue para um conservadorismo radical, escancarando, a natureza patriarcal e masculinista de nossa própria nação.
Entretanto, se no mundo real, vimos o Brasil galgar para o AI-5 dois anos após a estreia do filme, Domingo Oliveira dirige seu personagem a um outro caminho, aquele da redenção através da compreensão, dos desejos e direitos da mulher de seu tempo, através de uma consciência da finitude das coisas, que serve como aguento contra o conservadorismo que antes lhe parecia perene, embora de certa forma, continue enquanto ameaça latente.
—Promete você: que nunca mais vai ter uma mulher que não seja eu.
— Não.
— Por quê?
— Porque não gosto de juramentos eternos.
O que mais me chama a atenção, é em como o filme celebra o amor livre e a sexualidade sem jamais ser panfletário ou cínico, pelo contrário, ele aceita as contradições de suas personagens, para a partir daí, produzir sua dialética. Muito se fala, em sua proximidade com a Nouvelle vague, sobretudo, com cinema de Godard, mas sinceramente, sempre tive dificuldade para observar as contradições de gênero (sobretudo masculinas) nos filmes do francês (ao menos em seus longas da década de 70) enquanto aqui por sua vez, elas me parecem muito menos essencialistas, e mais conscientes de seu caráter construído.
Mesmo as atitudes mais reprováveis de suas personagens, são tratadas com sarcasmo, comicidade e molejo, características essas, que só um filme tipicamente brasileiro, conseguiria reproduzir.
Seria esse o caminho do Brasil? A esquerda deveria admitir logo seu direitismo para enfim nos emanciparmos da nossa herança maldita?
