“Todo brasileiro no fundo é preto, mas quando coloca um smoking, ele vira branco.”
— Grande Otelo, sobre “Macunaíma” em entrevista ao programa Roda Viva.
Macunaíma, ao nascer, é batizado com esse nome, pois segundo sua mãe, nome que começa com Ma, tem má sina, já pronunciando os revezes de nosso herói, que ao nascer sem pai, já demonstra seu caráter apátrida, sem caráter definido, assim como o Brasil enquanto nação, parida como resultado da cruza intercultural entre diferentes povos e etnias.
Nosso herói, negando-se a lançar ao mundo simbólico e complexo da linguagem que exigiria com que o mesmo trabalhasse, reinvendicando assim em primeiro lugar o direito do gozar sua preguiça, se recusa a falar, mas ao sentir fome e receber apenas as tripas, passa a descobrir aos poucos, que terá que fazer concessões para conseguir saciar sua fome, e daí que se dá a jornada antropofagica de nosso protagonista, que torna-se branco quando lhe convém, a fim de obter determinados benefícios.
Após a morte da mãe, sendo desalienado do triângulo edipiano, Macunaíma é lançado a força ao mundo simbólico, se chocando contra o mundo urbano, ao sair do mundo tribal.
Ao chegar na cidade grande, Macunaíma com suas ambições, é diretamente defrontado com a luta de classes, onde cruza com ativistas políticos, charlatães e burgueses.
Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade, diferente da obra original de Mário de Andrade, que está fortemente vinculada ao movimento modernista, ligada diretamente ao “Manifesto antropofágico” de Oswald de Andrade, é uma miscelânea entre o tropicalismo, que carrega o modernismo em sua gênese, e o Cinema novo, que carrega em seu DNA, a “Estética da fome”, que evoca a fome do Brasil, como o principal pilar de sua expressão estética.
O diretor, traz uma carga crítica ao antropofagismo, ao demonstrar seus perigos, pois Macunaíma em busca de saciar seus desejos a partir de uma perspectiva individualista, acaba por fim, sendo devorado por uma Iara que lhe seduz, representando assim, sua própria canibalização.
Macunaíma é uma obra cinematográfica ímpar, sendo cômico, erótico, lisérgico e provocador e não decepciona ao fazer jus aos diferentes movimentos que lhe conceberam.
Por isso, afirmo sem pestanejar: tá gostoso sim, coração.
